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Classe Tamandaré: mais detalhes da proposta do GSL e Inace

No final de junho, durante a feira RIDEX, conhecemos alguns detalhes importantes sobre a parceria do Goa Shipyard Limited com a Indústria Naval do Ceará para a concorrência da classe Tamandaré da MB, na qual essas empresas oferecem a construção do projeto da própria Marinha


Por Fernando “Nunão” De Martini | Poder Naval

Esta matéria trata da proposta do estaleiro indiano Goa Shipyard Limited – GSL, em conjunto com a empresa brasileira Inace – Indústria Naval do Ceará, para a concorrência da classe “Tamandaré” da Marinha do Brasil (MB), conforme pudemos apurar na última edição da feira de defesa RIDEX, que ocorreu entre 27 e 29 de junho. Porém, como em matéria publicada na semana passada sobre outra oferta concorrente, é importante relembrar o histórico do programa da Marinha antes de passar para os detalhes da proposta.

Concepção artística da corveta classe Tamandaré, projetada pelo Centro de Projetos de Navios – CPN – da Marinha do Brasil. Outro ângulo do navio pode ser visto na imagem de abertura da matéria

Em 19 de dezembro de 2017 a MB lançou o Pedido de Propostas (RFP – request for proposal) para empresas estrangeiras interessadas em construir os navios, em parceria com estaleiros do Brasil, com transferência de tecnologia. Os participantes puderam responder ao pedido tanto com ofertas para construção do projeto de propriedade intelectual da Marinha (a corveta classe “Tamandaré” – CCT) quanto com projeto de propriedade intelectual do proponente – Napip – desde que superasse as características do projeto da MB. Em 18 de junho deste ano, nove propostas foram recebidas pela Marinha, entre elas a do Goa Shipyard, numa parceria feita com a Inace. Participam também da proposta a Fundação Ezute e a SKM Eletro Eletrônica.

O Goa Shipyard optou por participar da concorrência com oferta de construção do projeto da própria Marinha, a CCT, de uma corveta de 2.790 toneladas (a plena carga) concebida pelo Centro de Projetos de Navios da MB e com projeto detalhado pela empresa Vard. Começamos esta matéria falando um pouco dessa decisão.

Projeto da Marinha e redução de riscos 

Nossa conversa na RIDEX ocorreu dentro do estande da Inace, com dois de seus profissionais, o engenheiro naval Flavio Gil B. Barros (que representa a nova geração da família que comanda a empresa) e o coordenador técnico Rafael Isidio. A eles se somou o responsável pelo marketing do consórcio, Felipe Salles. Na maior parte dos assuntos tratados, a questão de reduzir ao máximo os riscos do programa para a Marinha foi bastante abordada, e a decisão pelo projeto da própria MB foi um deles.

O Goa Shipyard poderia ter oferecido um Napip a partir do seu NOPV (Naval Offshore Patrol Vessel – navio patrulha oceânico naval), que tem exemplares entregues para as marinhas da Índia e do Sri Lanka, e cujo porte é semelhante ao do projeto da Marinha do Brasil (as dimensões externas chegam a ser muito parecidas).

Porém, na visão do estaleiro, o fato do projeto da própria Marinha ter sido concebido, desde o início, para atender às especificações e requisitos que ela mesma levantou, buscando aproveitar as melhores características de um navio bem-sucedido (a corveta Barroso) e aprimorar as características operacionais, significa menos risco do que a adaptação de outro projeto existente para atender às diversas exigências expressas no RFP.

Em suma, como o projeto da Marinha do Brasil atende às especificações e necessidades da própria, é com ele que a parceria GSL / Inace decidiu concorrer.

Primeiro da lista 

A escolha da Inace pelos indianos como parceira brasileira do programa também visou reduzir os riscos. Segundo Felipe Salles e Flavio Barros, a Inace figurou em primeiro lugar na lista do Goa Shipyard entre os possíveis parceiros brasileiros, e o motivo é que o estaleiro localizado na capital do Ceará já atende a Marinha do Brasil há bastante tempo e continua a atendê-la. Barros ressaltou que, entre os estaleiros privados brasileiros, somente a Inace tem construído e entregue, com sucesso, navios para a MB recentemente, acumulando mais de 30 anos de atendimento frequente às necessidades de construção da Marinha.

Após entregar duas pequenas embarcações à MB no início da década de 1980 (o aviso de pesquisa oceanográfica Suboficial Oliveira e o recuperador de torpedos Almirante Hess), em meados dos anos 1990 o estaleiro passou a ter em suas carreiras, constantemente, cascos em construção para a MB: quatro embarcações de desembarque de viaturas e material (EDVM) construídas em meados dos anos 1990; dois navios-patrulha de 200 toneladas classe “Grajaú” entregues no final da mesma década, tendo também construído um terceiro do tipo para a Marinha da Namíbia na década seguinte; dois navios-patrulha da classe “Macaé”, de 500 toneladas (década de 2000); cinco avisos de patrulha classe “Marlim” de 45 toneladas (décadas de 2000/2010, além de duas unidades para a Namíbia); um navio hidroceanográfico fluvial e cinco avisos hidroceanográficos fluviais (construídos e entregues na primeira metade desta década).

Boa parte dessas construções foi realizada com casco em aço e superestrutura em alumínio (os avisos de patrulha são construídos totalmente em alumínio) e a Inace detém experiência na tecnologia de barras bi-metálicas, produzidas por processo de explosão, para soldar as partes do navio construídas de cada tipo de metal, ou seja, a transição aço-alumínio. Além da experiência com navios militares, a Inace acumula cerca de 700 embarcações entregues desde o início de suas atividades no setor naval, em 1968, incluindo navios para apoio marítimo e portuário, empurradores fluviais e iates de luxo (segmento em que é líder no Brasil, com entregas tanto a clientes nacionais quanto estrangeiros).

Alumínio e chapas finas de aço 

Um ponto destacado por Barros e por Isidio é que a Inace já acumula grande experiência em trabalhar com chapas finas de aço, que são empregadas na construção naval militar. Nos cascos dos navios de guerra, são privilegiadas estruturas leves com elementos estruturais menos espaçados para garantir a robustez e chapeamento mais fino, que são mais difíceis de soldar e de se trabalhar. Já na construção naval mercante são utilizadas chapas mais grossas e elementos estruturais geralmente mais espaçados, o que torna o processo de construção mais fácil do que para navios militares.

A maior parte dos estaleiros brasileiros têm pessoal capacitado para a construção mercante enquanto a Inace, segundo Barros, mantém no seu quadro equipes capacitadas para a construção naval militar e que têm trabalhado nas encomendas da Marinha do Brasil, soldando chapas finas de aço como as empregadas nos navios-patrulha, assim como superestruturas e outras partes em alumínio. Barros ressaltou que são raros os estaleiros que produzem navios de aço e de alumínio na mesma localidade, devido às diferenças nas técnicas e à necessidade de evitar contaminação de um metal em outro, e que a Inace realiza ambas as atividades em ambientes segregados, com pessoal qualificado para cada atividade. Foi lembrado também que, enquanto a Inace construiu totalmente casco e superestrutura dos dois primeiros navios da classe “Macaé”, o estaleiro Eisa, que passou a construir demais unidades da classe (e que devido a processo falimentar interrompeu o programa) encomendou a superestrutura de alumínio a terceiros.

Outro ponto destacado pelo pessoal da Inace, em nossa conversa na RIDEX, é que o clima em Fortaleza, onde estão as instalações do estaleiro, tem relativamente pouca amplitude térmica ao longo do ano e as condições de temperatura e umidade são bastante favoráveis ao trabalho de solda, permitindo maior produtividade em qualquer mês. Além disso, Barros informou que o estaleiro cearense realiza os trabalhos de construção das seções dos cascos e superestruturas em galpões cobertos, ficando atualmente apenas a união final, no caso dos navios de maior porte, em área descoberta.

Elevador e trilhos 

Perguntado sobre a necessidade de investimentos em máquinas e instalações na Inace para a construção de corvetas, navios de porte bem maior que os construídos até hoje para a MB, o engenheiro Flavio Gil Barros afirmou que o estaleiro cearense precisará de poucas mudanças em sua infraestrutura e equipamentos para construir a classe “Tamandaré”. Os galpões cobertos, que poderiam hoje construir simultaneamente cerca de uma dúzia de navios-patrulha de 500 toneladas, têm dimensões suficientes para abrigar seções e blocos de acabamento avançado das corvetas, para união final em pátio externo. A proposta técnica prevê, porém, a construção de mais um galpão onde se pretende unir os dois últimos mega blocos de cada corveta (os métodos de construção são abordados mais à frente).

Os lançamentos ao mar são feitos por um elevador de navios (shiplift) para o qual o casco é transferido após a conclusão e, segundo Flavio, esse é o principal item que precisará ser ampliado. A largura do shiplift, que é de construção modular, já é suficiente, pois ultrapassa as medidas de boca da corveta. Será preciso apenas adquirir e instalar mais módulos para aumentar o comprimento do elevador de navios, segundo Barros.

Perguntamos como o estaleiro faz a transferência das seções de casco e da obra completa entre as oficinas, o pátio e o elevador: por exemplo, por veículos transportadores sobre rodas. O engenheiro respondeu que desde muito tempo a Inace projetou e implantou um sistema mais tradicional e efetivo, sobre trilhos, e que as linhas de ligação entre as oficinas somam vários quilômetros de trilhos, funcionando com eficiência há décadas.

Cultura e transferência de tecnologia 

Flavio e Rafael informaram que as tratativas da Inace com o Goa Shipyard vêm se desdobrando há meses (culminaram com a assinatura de um memorando de entendimento em 8 de junho deste ano), com visitas de pessoal brasileiro à Índia e de indianos ao Brasil, e que nesse processo os dois lados perceberam mais sinergias do que diferenças nas culturas de trabalho, além de interesses comuns para o futuro. O GSL vê na Inace uma porta para o mercado das Américas e a Inace para vê a GSL como caminho para atender a Ásia. Segundo o pessoal da Inace, as conversas e tratamento mútuo têm se dado mais como iguais, e não “de cima para baixo” como frequentemente se dá entre estaleiros europeus e brasileiros, por exemplo.

Para o programa das corvetas classe “Tamandaré”, a proposta entregue à Marinha prevê a construção da primeira unidade na Índia. A transferência de tecnologia / conhecimento se dará, inicialmente, no projeto de construção: o projeto da Marinha já está detalhado em suas características, equipamentos e sistemas, mas qualquer estaleiro precisa, antes de construir, fazer a revisão do mesmo para garantir que atenderá aos padrões internacionais e também o detalhamento de construção, separando a obra em blocos e mega blocos de acabamento avançado, organizando todo o cronograma construtivo etc. Em seguida, esse processo de absorção de tecnologias se dará na construção da primeira corveta no Goa Shipyard, com treinamentos “on the job”, ou “com a mão na massa” para engenheiros e técnicos brasileiros, focando no método de blocos de acabamento avançado, com instalação de seus principais equipamentos e sistemas antes da união final das partes. As três unidades seguintes serão construídas na Inace, seguindo o cronograma estabelecido pela Marinha no pedido de proposta.

Produtividade e compensações 

Um dos diferenciais do Goa Shipyard, e que Salles, Barros e Isidio afirmaram ter comprovado nas visitas à Índia em que acompanharam as atividades, tem sido a capacidade de atender rapidamente às demandas de seu principal cliente, a Marinha Indiana. Desde o fornecimento emergencial de centenas de lanchas interceptadoras e pequenas corvetas lança-mísseis, cumprido em prazo recorde, até os atuais navios-patrulha oceânicos de 2.500 toneladas, cujas entregas estão ocorrendo antes do prazo, o estaleiro indiano tem aumentado sua produtividade: nos últimos quatro anos, entregou mais de 23 navios, e ao mesmo tempo investe num grande programa de ampliação e modernização das instalações.

A parceria com a Inace é vista pelo Goa Shipyard como exportação / transferência de tecnologia (ToT) e processos para expandir a capacidade e mercados, e inclui não só a ToT ao estaleiro cearense, mas também offsets (compensações) para a Marinha e o AMRJ (Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro). O GSL entende, segundo as informações prestadas por Salles, que suas próprias carreiras e oficinas continuarão bastante ocupadas mesmo após a expansão em andamento (o estaleiro indiano foi selecionado para construir fragatas de 4.000 toneladas para a Índia), e a construção de uma das corvetas brasileiras na Índia e as demais no Brasil, dentro do ritmo de produtividade do GSL, atende a uma oportunidade de entrar no mercado brasileiro. Os indianos veem nesse processo de aproximação com o Brasil oportunidades de entrar, também, no segmento de navios de apoio a plataformas, entre outros.

Custos e apoio logístico 

A proposta para o programa da classe “Tamandaré” é vista pela Inace como bastante competitiva em preço, devido, por um lado, à produtividade do estaleiro indiano (que deverá ser absorvida em seus processos e tecnologias pela Inace para a produção local) e por outro à própria capacidade do estaleiro cearense, que necessita de poucos investimentos materiais (praticamente apenas a mencionada ampliação do elevador de navios e um novo galpão) para construir três das quatro corvetas seguindo o método de blocos de acabamento avançado para navios militares. Ambos os aspectos, segundo o pessoal da Inace, reduzem bastante os riscos e os custos ao mesmo tempo, atendendo também às exigências de conteúdo local estabelecidas no pedido de propostas (RFP).

O RFP da Marinha também estipula apoio logístico integrado e de manutenção pelo estaleiro vencedor, ao longo dos oito primeiros anos. Barros informou que as instalações de reparo naval e de pier atracável já existentes na Inace atendem aos requisitos para esse apoio, mas que há possibilidades de também se manter equipes no Rio de Janeiro para os serviços, se assim for estipulado. Sobre a localização do estaleiro em Fortaleza, uma das facilidades tanto para o período de construção quanto para o de apoio logístico está, segundo Barros e Isidio, na proximidade com o porto de Pecém e a larga experiência da Inace nos trâmites para recebimento e liberação de equipamentos importados, além de seu transporte às suas instalações.

Visita e futuro 

Durante a RIDEX, o estande da Inace recebeu a visita do comandante da Marinha, almirante de esquadra Eduardo Bacellar Leal Ferreira, e o principal assunto na rápida passagem do almirante foi um ponto destacado, por Salles, também em nossa longa conversa no estande: a necessidade de se quebrar preconceitos com a construção naval militar na Índia, que tem sido uma das mais produtivas do mundo e que poderá agregar conhecimento para a brasileira, a partir da parceria com a Inace, segundo seus executivos. Fonte do Poder Naval também informou que a Marinha está visitando os estaleiros dos nove consórcios concorrentes ao programa da classe “Tamandaré”, como parte do processo de seleção que deverá apresentar uma “short list” com finalistas em 27 de agosto, dos quais um consórcio deverá ser declarado vencedor até 28 de setembro, segundo o cronograma original.

Não é pequeno, na opinião deste autor, o salto que a Inace terá que dar entre a experiência atual em navios militares de até 500 toneladas e as corvetas de quase 3.000 toneladas, caso sua parceria com o GSL seja escolhida. Mas é fato, por outro lado, que a Inace se posicionou ao longo de décadas como o principal estaleiro privado a construir e, principalmente, entregar navios para a MB (incluindo navios projetados pelo Centro de Projetos da Marinha), período em que outros estaleiros nacionais vivenciaram problemas tanto de adaptação para esse tipo de construção quanto dificuldades de gestão e falências. A decisão de construir o projeto da corveta classe “Tamandaré”, de propriedade intelectual da Marinha, pode ser um diferencial da parceria GSL / Inace quando se leva em conta que os demais concorrentes optaram por projetos de propriedade intelectual do proponente (Napip). Embora também traga seu componente de risco, essa decisão tem potencial de abrir oportunidades do Índico ao Atlântico e vice-versa, pensando no futuro dessa possível relação Índia-Brasil em navios militares. A conferir.

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