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Os mísseis russos que se tornaram alvo de disputa entre EUA e Turquia

A Turquia, dona do segundo maior Exército entre os 29 países que compõem a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), está prestes a adquirir mísseis antiaéreos S-400.
BBC News Brasil

Os S-400 são os mísseis "terra-ar" mais avançados do mundo e se tornaram motivo de uma disputa entre Turquia e Estados Unidos que pode ameaçar a aliança militar das potências ocidentais.

Isso porque os S-400 são fabricados na Rússia, o principal rival da organização fundada em 1949 justamente para se opor à então União Soviética.

A insistência da Turquia em adquirir os mísseis russos irritou os Estados Unidos, que encaram a decisão como uma potencial ameaça para seus aviões de combate F-35, também em vias de serem comprados pelos turcos.
Troca de farpas

"Não ficaremos de braços cruzados enquanto os aliados da Otan compram armas dos nossos adversários", advertiu o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, durante um encontro organizado há poucos dias em Washington para celebrar o aniversár…

Por que a Líbia volta a ser tomada pela guerra civil

Pelo menos 2.800 pessoas fugiram de combates perto da capital da Líbia, Trípoli, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).


BBC News Brasil 


A entidade afirma ainda que outros civis estão encurralados pelos confrontos e isolados de serviços de emergência.

Soldados carregando munições na Líbia
Soldados de Misrata estão ajudando a defender a cidade de Trípoli | Reuters

A ofensiva contra a cidade começou na última quinta-feira, quando o general Khalifa Haftar anunciou que tomaria Trípoli do governo da Líbia apoiado pela ONU.

Nesta segunda-feira, o aeroporto de Matiga, o único em funcionamento em Trípoli, foi atingido por ataques aéreos realizados por forças leais a Haftar, segundo a ONU. A entidade fala em desrespeito à lei internacional.

Não há relatos de vítimas ou aviões civis atingidos. Segundo um porta-voz de Haftar, o ataque mirava um caça militar MiG que estava no local.

Nos últimos dias, as potências internacionais começaram a retirar suas equipes do país.

O primeiro-ministro líbio, Fayez al-Serraj, acusou Haftar e as forças sob seu comando de tentativa de golpe de Estado e prometeu responder aos insurgentes com força.

A Líbia foi dilacerada pela violência, pela instabilidade política e pelas lutas pelo poder, desde que o governante de longa data, Muammar Gaddafi, foi deposto e morto em 2011.

As milícias que ganharam força desde então se dividem em diversos aspectos, como político, religioso, étnico e ideológico. Há militantes islâmicos, moderados, monarquistas e liberais que tiveram pouca experiência democrática no país.

O que há de mais recente nos confrontos?

O Ministério da Saúde Pública disse na segunda-feira que pelo menos 25 pessoas foram mortas e 80 ficaram feridas, incluindo civis e soldados. As forças do general Haftar disseram que perderam pelo menos 19 combatentes.

A ONU chegou a pedir uma trégua de duas horas para que vítimas e civis pudessem ser socorridos, mas a solicitação foi ignorada e o combate continuou.

Em resposta, a União Europeia e vários países, incluindo os EUA e a Rússia, pediram o fim dos confrontos.

"Esta campanha militar unilateral contra Trípoli está colocando em risco civis e prejudicando as perspectivas de um futuro melhor para todos os líbios", disse Mike Pompeo, secretário de Estado dos EUA.

As negociações apoiadas pela ONU foram marcadas para o próximo dia 14 com o objetivo discutir um roteiro para novas eleições. Mas ainda não está claro se elas serão mantidas.

Um porta-voz da ONU disse à agência de notícias AFP que eles "ainda esperam por uma resposta positiva".

Qual é a situação nas imediações de Trípoli?

As forças do Exército Nacional Líbio (ENL), lideradas pelo general Haftar, vêm realizando um ataque multivariado contra Trípoli.

O ENL informou que realizou seu primeiro ataque aéreo no domingo - um dia depois de o Governo de Unidade Nacional (GNA), apoiado pela ONU, atacá-lo com ataques aéreos.

Houve confrontos no entorno de um aeroporto desativado em Trípoli.

O primeiro-ministro, Fayez al-Serraj, disse no sábado que defenderá a capital. Ele disse ter feito concessões ao general Haftar para evitar derramamento de sangue, mas acabou "apunhalado pelas costas".

Quem já deixou o país?

O Comando dos Estados Unidos para a África - que é responsável pelas operações militares dos EUA e pela ligação na África - disse que transferiu um contingente de forças dos EUA para fora do país devido ao "aumento da agitação".

Houve relatos de que uma nave anfíbia rápida sendo usada na operação.

A ministra das Relações Exteriores da Índia, Sushma Swaraj, disse que o contingente total de 15 membros da força de paz da Força de Reserva Central foi retirado de Trípoli porque a situação na Líbia "piorou repentinamente".

A multinacional italiana de petróleo e gás Eni decidiu retirar todos os funcionários italianos do país.

A ONU também deve retirar boa parte de sua equipe e manter apenas o essencial no país.

Há relatos de moradores de Trípoli terem começado a estocar alimentos e combustível. Mas o editor de assuntos árabes da BBC, Sebastian Usher, diz que muitos dos que estão perto dos combates hesitam em suas casas por medo de saques.

Líbios temem uma longa ofensiva em Trípoli, como a que o general Haftar adotou para tomar a cidade de Benghazi, no leste, de milícias em 2017.

Quem é o general Haftar?

A Líbia foi destruída por uma série de conflitos desde a derrubada de Gaddafi em 2011. Desde então dezenas de milícias operam no país.

General Haftar
Depois de assumir o controle de Benghazi, Haftar voltou sua atenção para alcançar o cargo mais alto do país | AFP

O Governo de Unidade Nacional (GNA) foi criado durante negociações em 2015, mas tem lutado para assegurar o controle nacional.

Recentemente houve uma polarização na disputa de poder: parte se aliou ao GNA, apoiada pela ONU, sediada em Trípoli, e outra ao ENL, do general Haftar, que tem força no leste da Líbia e recebe apoio do Egito e dos Emirados Árabes Unidos.

Haftar é parte do cenário político líbio há quatro décadas. Sua ascensão política e militar teve um salto em 1969, quando ele ajudou o coronel Gaddafi a tomar o poder do rei Idris.

Ele subiu na hierarquia das Forças Armadas até os anos 1980, quando liderava as forças líbias em um conflito no Chade e acabou derrotado, preso e abandonado por Gaddafi. Haftar se exilou nos EUA, onde se aproximou das tentativas americanas de derrubar o mandatário líbio.

Em 2011, ele retornou à Líbia durante a guerra civil que levaria à queda e morte de Gaddafi - e no rescaldo se apresentou como o principal oponente de milícias islâmicas no leste da Líbia.

Por três anos ele lutou contra diversos grupos, incluindo os alinhados à al-Qaeda, na cidade de Benghazi. Mas seus críticos acusaram-no de rotular de "terrorista" qualquer pessoa que desafie sua autoridade.

Em 2015, o Parlamento eleito o nomeou como líder do Exército Nacional Líbio. Depois de tomar o controle de Benghazi, ele voltou suas atenções para o cargo mais alto do país. Mas um de seus principais obstáculos é uma cláusula no acordo intermediado pela ONU que impede que uma figura militar assuma o cargo político.

Em janeiro deste ano, suas forças lançaram uma ofensiva para tomar dois campos de petróleo no sul do país. Estima-se que ele controle a maior parte das reservas de petróleo da Líbia.

Ele tem apoio internacional?

Sim, há muito tempo. Haftar tem o apoio do Egito e dos Emirados Árabes Unidos - e fez uma visita à Arábia Saudita uma semana antes de lançar a ofensiva em Trípoli. O general Haftar fez várias viagens à Rússia, foi recebido em um porta-aviões russo na Líbia e no domingo a Rússia vetou uma declaração do Conselho de Segurança da ONU condenando seu avanço sobre Trípoli.

A França, que assumiu um papel de mediação, negou tomar partido apesar das suspeitas sobre sua relação com o general. O presidente francês, Emmanuel Macron, foi o primeiro líder ocidental a convidá-lo para a Europa em conversações de paz, e a França lançou ataques aéreos em apoio às forças do general Haftar em fevereiro. Eles atacaram as forças da oposição chadiana que lutavam contra o ENL no sul.

Observadores dizem que a participação de Haftar em conversas na França, Itália e Emirados Árabes Unidos buscava mais posicioná-lo no cenário internacional do que buscar um acordo.

A maioria das nações ocidentais apoia o governo de unidade. Desde a ofensiva em Trípoli, a ONU, os EUA e a União Europeia pediram a interrupção imediata dos combates e das negociações que envolvem Haftar.

Analistas dizem que Haftar pode ter feito esse movimento porque a ONU anunciou uma "conferência nacional" na cidade líbia de Ghadames, que será realizada entre 14 e 16 de abril, para discutir com comunidades locais um roteiro para eleições no país.

Com mais território sob seu controle, Haftar pode sentir que tem à mão algo mais forte que qualquer mesa de negociação.

Em entrevista em abril de 2016, o presidente americano Barack Obama disse que o pior erro de seu governo foi não ter preparado o terreno para a sucessão de Gaddafi.

De volta à estaca zero?

Análise de Rana Jawad, correspondente da BBC North Africa, em Tunis

A ofensiva do perigoso general sugere que, apesar da condenação internacional de seus recentes movimentos, ele acredita que só pode assegurar um lugar na futura composição política da Líbia por meios militares.

Diplomatas estão preocupados porque a maneira e o timing do ataque significam que é improvável que ele recue, a menos que seja derrotado.

Poucos pensaram que ele iria em frente e lançaria esta operação - algo que Haftar ameaçava fazer havia muito tempo - porque acreditavam que as conversas em andamento que o levaram a Paris, Palermo e Emirados Árabes Unidos serviriam para ganhar tempo até que um novo acordo político fosse alcançado por meio de negociações e de um eventual processo eleitoral.

Hoje, as nações ocidentais têm poucas cartas para tentar reduzir a violência e, mais uma vez, encontram-se em uma posição em que talvez precisem começar todo o processo do zero.

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