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Trump diz que 'certamente' entraria em guerra com o Irã, mas 'não agora'

O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que consideraria uma ação militar contra o Irã para impedir que a República Islâmica consiga armas nucleares. A briga entre Teerã e Washington aumentou depois que os EUA acusaram o Irã de atacar dois petroleiros.
Sputnik

"Eu certamente vou considerar as armas nucleares", disse Trump à revista Time na terça-feira, quando perguntado sobre o que poderia levá-lo a declarar guerra ao Irã. "E eu manteria o outro um ponto de interrogação".

A reportagem não especificou se o presidente elaborou o cenário de lançar um conflito armado de pleno direito com a República Islâmica sobre seu programa nuclear. Quando um repórter perguntou a Trump se ele estava considerando uma ação militar contra o Irã agora, ele respondeu: "Eu não diria isso. Eu não posso dizer isso".

Seus comentários foram feitos um dia depois de o Pentágono ter enviado 1.000 soldados extras para o Oriente Médio "para fins defensivos".

Os Estados Unidos cu…

O general em missão de paz que sobreviveu a tiroteios no front e nas redes

O helicóptero sobrevoa uma região verde e montanhosa na República Democrática do Congo, e a câmera enfoca o general de farda militar e boina azul que observa o horizonte pela janela. Sobre as imagens, uma voz feminina apresenta, em inglês, o comandante da missão de paz das Nações Unidas.


Júlia Dias Carneiro | BBC News Brasil no Rio de Janeiro

"Em uma terra varrida por armas e violência, um homem tem a missão de transformar os mantenedores de paz em pacificadores: o general brasileiro Alberto dos Santos Cruz", diz a narração, dando início a um documentário de 25 minutos da rede Al Jazeera sobre a missão de Santos Cruz no país africano, Congo e o General, de 2014.

Santos Cruz no Congo
Entre 2013 e 2015, Santos Cruz comandou mais de 23 mil capacetes azuis da ONU no Congo | UN PHOTO/SYLVAIN LIECHTI

Naquela época, entre 2013 e 2015, Santos Cruz comandava mais de 23 mil capacetes azuis da Organização das Nações Unidas, em uma rara missão de paz da ONU com autorização para atacar rebeldes. A tarefa lhe rendeu prestígio no âmbito internacional e nas Nações Unidas.

Corta para 2019, e Santos Cruz, com ternos em vez de fardas, é um dos militares que ocupam cargos-chave no governo de Jair Bolsonaro. Ocupa uma sala no quarto andar do Palácio do Planalto, um acima do presidente, como ministro-chefe da Secretaria de Governo (Segov).

Aos 67 anos, o general de reserva decidiu deixar a reserva para se aventurar na política - e virou o alvo mais recente de ataques de olavistas a militares do governo, capitaneados pelo ideólogo Olavo de Carvalho.

No mês passado, Santos Cruz recebeu xingamentos em série do "guru" de Bolsonaro nas redes sociais, foi publicamente criticado pelo filho de Bolsonaro, Carlos, e sofreu uma onda de ataques no Twitter que disseminou a hashtag #ForaSantosCruz.

O general, que já sobrevivera a uma aterrissagem de emergência depois de ter seu helicóptero alvejado por rebeldes no Congo, passou sem grandes danos pelos ataques virtuais. Mas o governo precisou vir a público negar especulações de que seria demitido.

Na Segov, Santos Cruz controla áreas estratégicas do governo, como a comunicação do Planalto e o Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), que atrai investimentos privados para projetos de infraestrutura. A área da comunicação é especialmente sensível - e alvo de interesses do filho do presidente Carlos Bolsonaro e de seus aliados, alguns dos maiores críticos à atuação do general.

As críticas à sua atuação vêm da ala ideológica do governo, também ligada a Olavo de Carvalho. O grupo diverge do perfil de Santos Cruz que, assim como os outros militares do governo, é visto como parte de uma ala mais "moderada" do bolsonarismo.

Questionando as credenciais de Santos Cruz, os olavistas tentaram manobras para que Bolsonaro reduzisse o seu poder, e tirasse a Secretaria de Comunicação (Secom) de seu controle e até o exonerasse.

Discreto, conhecido pela expressão sisuda que gerou memes na internet, Santos Cruz se nega a falar sobre as agressões de Olavo de Carvalho - que chegou a chamá-lo de "seu merda" e "bosta engomada" nas redes sociais. Dias depois, Carvalho foi agraciado pelo governo com a Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco, o mais alto grau de condecoração oficial.

"Você vê pelo nível das coisas que não vale a pena nem responder", afirma Santos Cruz à BBC News Brasil.

"Eu exerço minha função", continua. "Não tem muita consideração a fazer a não ser trabalhar. Para isso que a gente é pago, e é isso que a sociedade espera da gente. Não é ficar discutindo fofoca."

Os embates explicitam as divergências entre os dois grupos do governo que mais influenciam Bolsonaro: Carvalho, um "ícone" que trabalha "contra a ideologia insana" de esquerda; e os militares, a quem deve sua "formação e admiração". Essas foram as palavras usadas pelo presidente ao considerar as desavenças uma "página virada".

Santos Cruz já tinha tido passagens pelo governo antes de integrar a cúpula de Bolsonaro. Durante o mandato de Dilma Rousseff, ocupou brevemente uma assessoria na Secretaria de Assuntos Estratégicos, à época nas mãos de Moreira Franco. No governo Temer, chefiou a Secretaria Nacional Segurança Pública (Senasp), entre abril de 2017 e junho de 2018.

Quando a equipe de Bolsonaro estava se compondo, o general chegou a ser anunciado para voltar ao cargo na Senasp, ligado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, comandado por Sérgio Moro. Dias depois, entretanto, o presidente anunciou seu nome para a Secretaria de Governo (Segov).

A secretaria foi criada no fim do governo Dilma (PT), à época chefiada pelo petista Ricardo Berzoini, e no governo Temer foi controlada por Geddel Vieira Lima (MDB), Antônio Imbassahy (PSDB) e Carlos Marun (também do MDB). Nessa época, prevalecia a atribuição de fazer a articulação política com o Congresso.

Santos Cruz, entretanto, recebeu a pasta repaginada. A missão de fazer a articulação com o Legislativo passou prioritariamente à Casa Civil, sob Onyx Lorenzoni (DEM), com a Segov dando apoio à função, fiscalizando a liberação das emendas parlamentares impositivas e recebendo deputados e senadores.

Mas a Segov de Bolsonaro ganhou dois setores de peso: a Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom), responsável por toda a comunicação e verba publicitária do Planalto, atualmente com orçamento de R$ 109 milhões; e a Secretaria Especial do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), que coordena o programa de parcerias com o setor privado em projetos de infraestrutura, criado no governo Temer.

As novas atribuições se somam a outras responsabilidades da pasta, que controla as secretarias de Articulação Social, Assuntos Federativos e Relações Institucionais, entre outras.

Na disputa de influência entre os militares e olavistas no governo, a ala ideológica questiona o poder de Santos Cruz sobre tantas áreas.

As divergências ficaram explícitas com o episódio envolvendo a campanha publicitária do Banco do Brasil, por exemplo, e com a dança de cadeiras na Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex). A agência já está no terceiro presidente neste ano, o contra-almirante Sergio Segovia, aliado de Santos Cruz, que assumiu em maio e exonerou dois diretores "olavistas" ligados ao ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

Já a propaganda do BB, que explorava o tema da diversidade e foi tirada do ar por determinação do Planalto, expôs uma discordância de Santos Cruz com o próprio presidente. Embora Bolsonaro tenha vetado a campanha afirmando que "a massa quer respeito à família", Santos Cruz afirmou que a Secom não poderia interferir na publicidade de estatais. A Lei das Estatais veda esse tipo de interferência.

O episódio motivou críticas explícitas do filho do presidente, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC), à Santos Cruz - afirmando nas redes sociais que havia "uma comunicação falha há meses da equipe do presidente", e que ele tinha "literalmente se matado" para tentar melhorá-la.

À BBC News Brasil Santos Cruz diz que a verba publicitária do governo tem que ser alocada conforme "critérios técnicos".

"Isso é fundamental", afirma. "Depende do objetivo que você tem, do público que quer atingir, dos preços, se o veículo mais apropriado é TV ou é rádio. Tudo isso depende de uma avaliação técnica. Esse é o centro da questão", afirma.

Ele vê a comunicação como "uma área muito sensível", e diz que as estratégias devem ser traçadas "sem ideologia". "Uma comunicação boa se faz quando você tem fatos de qualidade", afirma.

"Quando o governo produz coisas boas, fica fácil fazer a comunicação e esclarecer o público. Ela está ligada à qualidade do que você faz na vida real. Sem ideologia. Uma comunicação informativa realmente, que não seja usada para a parte de ideologia, para plano pessoal, nem para plano de permanência no poder."

Santos Cruz não demonstra irritação por receber críticas do filho do presidente. "A comunicação é muito importante, e os familiares [de Bolsonaro] são pessoas que têm todo o direito de expressar sua opinião", considera. "Claro que quando eles expressam, acaba tendo mais repercussão."

Atualmente os gastos do governo federal em publicidade, incluindo as estatais, não são divulgados de forma transparente. O Banco do Brasil e a Caixa Econômica divulgam, por exemplo, que veículos de mídia foram pagos pelas instituições, mas não os valores discriminados.

As vantagens de ocupar um posto em Brasília incluem a possibilidade de estar perto da esposa - com quem assistiu ao Balé Nacional da China em meio à rotina apressada de viagens em maio -, dos três filhos, que têm entre 35 e 40 anos, e dos quatro netos. Ele diz ser apegado à família. "Eu gosto do meu pessoal."

Já as desvantagens de estar nos holofotes ficaram evidentes com os ataques virtuais que sofreu em maio.

Olavo de Carvalho fez uma série de críticas a Santos Cruz nas redes sociais, resgatando uma entrevista dada pelo ministro à Jovem Pan e ao Estadão um mês antes. Santos Cruz afirmara que o uso das redes sociais exigia cuidado para evitar distorções, e defendeu o aprimoramento da legislação. O ideólogo acusou o general de defender "controlar a internet", e a interpretação se difundiu, levando a hashtag #ForaSantosCruz a se tornar um dos assuntos mais discutidos no Twitter.

O pano de fundo para a crise é a disputa de poder entre a chamada ala "ideológica" do governo, com forte influência de Olavo de Carvalho, e os militares no Planalto.

Enquanto os militares defendem uma agenda pautada pela técnica e eficiência nas contas e políticas públicas, afirma o cientista político Rafael Cortez, a ala mais "ideológica" se imbuiu de uma missão "civilizatória", ligada aos valores cristãos e à ideia de que o país precisa ser "saneado" da influência da esquerda.

"Não há um problema pessoal com o Santos Cruz. Ele está inserido nesse contexto maior. E, nesta disputa por hegemonia, os militares têm uma postura mais tímida, enquanto a ala ideológica é proativa nas provocações", descreve Cortez, da Tendências Consultoria.

"São visões de mundo antagônicas, muito difíceis de conciliar", resume o cientista político Maurício Santoro, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Mas também há uma disputa "muito real e cotidiana" por cargos e poder, destaca Santoro - sobretudo pelo controle da comunicação e da verba publicitária do governo, setores estratégicos que estão nas mãos de Santos Cruz.

Sempre que a rotina permite, Santos Cruz madruga para praticar hipismo no 1º Regimento de Cavalaria de Guardas, a 20 km do Palácio do Planalto.

É acompanhado de alguns dos militares mais poderosos do país, como o comandante do Exército, Édson Pujol, e o vice-presidente Hamilton Mourão, que também foi alvo recente de ataques de Olavo de Carvalho.

O general descreve o hipismo como uma prática "maravilhosa" para manter a forma física e emocional. "A atividade hípica exige concentração. Você desenvolve aspectos de coragem, de habilidade, de determinação, de conjunto. De acreditar no que vai acontecer."

Búlgaro, Seixo e Tempo são os três cavalos de competição do Exército que ele próprio treinou e considera "família". "A gente pega amor pelos animais", diz.

Santos Cruz nega a existência de uma ala militar no entorno da Presidência, e diz não haver disputa entre grupos.

"Não tem cabimento você fazer grupos dentro de um governo. Todo mundo tem que trabalhar na mesma direção, dentro da diretriz do presidente da República."

O amor pelos cavalos vem da infância na zona rural de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, onde nasceu. Na época eram "cavalinhos da roça", e não os exemplares de elite de hoje.

Nascido em 1952, Santos Cruz ficou órfão do pai aos três meses, e da mãe aos cinco anos de idade. A educação que recebeu - em uma escola de madeira, mas com "professores excelentes" - foi fundamental para chegar onde chegou, disse em entrevista à jornalista Miriam Leitão em janeiro.

Na ocasião, contou que, com a herança que recebeu, só conseguiu comprar um toca-fitas. Mas agradeceu pelo papel que os pais tiveram em sua formação, mesmo com a pouca convivência que tiveram.

"Eles deixaram algumas prateleiras cheias de livros, que eu li quando era criança."

Santos Cruz tinha 16 anos, e nenhum militar na família, quando passou no concurso para a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx).

Foi a porta de entrada para sua carreira. Formou-se aspirante a oficial com especialização em infantaria na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), em Resende, em 1974 - três anos antes de Jair Bolsonaro, que foi seu calouro e se formou em 1977. A frase estampada no pátio da formatura anual dos cadetes resume a filosofia ensinada ali: "Cadete! Ides comandar, aprendei a obedecer"

Militares entrevistados pela BBC News Brasil descrevem a trajetória de Santos Cruz no Exército como "exemplar", um general que se mantinha na linha de frente ao lado dos soldados, inspirava os outros a partir de sua conduta e sempre manteve um condicionamento físico "colossal".

"Ele foi um dos primeiros colocados no curso", lembra o general e atual deputado federal Eliéser Girão (PSL-RN), contemporâneo de Santos Cruz na Aman, dois anos abaixo. "Para a minha turma, ele sempre foi uma referência de militar e líder", descreve.

Diante do prestígio, a BBC News Brasil apurou que causou "espécie" quando Santos Cruz não recebeu a quarta e consagradora estrela do generalato.

Depois de chefiar a missão de paz da ONU no Haiti, comandando 12 mil capacetes azuis entre 2006 e 2009, havia expectativa de que fosse promovido. O posto também havia sido ocupado pelos generais Augusto Heleno e Edson Pujol, ambos agraciados pela quarta estrela ao retornar para o Brasil, tornando-se generais-de-exército.

A indicação cabe ao Alto Comando do Exército, que apresenta os nomes de sua preferência à Presidência. Há 16 generais quatro estrelas atualmente na corporação, e eles compõem, ao lado do comandante, o Alto Comando do Exército.

Santos Cruz acabou indo para reserva como general-de-divisão, que em tempos de paz corresponde a um nível hierárquico abaixo.

Quando foi convidado pela ONU para chefiar a missão de paz na República Democrática do Congo (RDC), houve surpresa no Alto Comando de que a escolha não fosse por um general de quatro estrelas.

No país africano, Santos Cruz chegaria ao ápice de sua carreira militar.

"Ele teve desempenho excepcional e foi um dos pouquíssimos militares brasileiros que se viram de fato envolvidos em situações de guerra", comenta uma fonte.

O diretor do Centro de Informação das Nações Unidas (Unic), Maurizio Giuliano, trabalhava no Congo durante o comando de Santos Cruz e lembra uma situação que considera emblemática de sua filosofia à frente da missão - a Missão das Nações Unidas de Estabilização da República Democrática do Congo (Monusco).

Santos Cruz chegou a uma reunião em Punia, na RDC, vestindo a habitual farda da ONU com a bandeira do Brasil no ombro, e levando uma arma presa ao cinto. A arma virou assunto, e o general explicou: "Quero enviar uma mensagem forte de que não estamos apenas observando. Estamos aqui para cumprir o nosso mandato. E usaremos os meios que forem necessários para tal", afirmou, segundo o relato de Giuliano.

No Haiti, Santos Cruz havia comandado 12 mil homens numa missão de "manutenção de estabilidade". Já no Congo, onde era responsável por mais de 23 mil soldados, o objetivo era a "imposição de paz".

O general foi convocado para o Congo logo depois de o Conselho de Segurança da ONU aprovar, em março de 2013, a atuação de uma brigada para operações contra grupos armados que ameaçassem a paz no leste do país africano. Ou seja, as tropas passaram a ter permissão para ações ofensivas, uma exceção na estratégia dos "capacetes azuis" da ONU.

"A palavra que mais ouvi o general Santos Cruz dizer foi 'action'", lembra o major Maurílio Ferreira, que foi ajudante de ordens do general durante um ano.

"A gente sempre diz que a palavra convence, e o exemplo arrasta. Com ele era assim. Além de falar, ele ia junto, na linha de frente. Inspirava o grupo, e os soldados mais novos eram motivados pela sua coragem", diz Ferreira, que hoje dedica seu doutorado na Escola de Comando e Estado Maior do Exército ao estudo da missão no Congo.

O major conta que Santos Cruz aprendeu francês para aprimorar a comunicação com os soldados e autoridades locais, acrescentando ao repertório de inglês, espanhol e russo - que praticou quando foi adido militar na embaixada brasileira em Moscou, entre 2001 e 2002.

O subtenente Antônio Marcos da Cruz, que era segurança da equipe pessoal de Santos Cruz, diz que ele trabalhava muito, dormia pouco e sempre praticava atividade físicas - geralmente uma corrida antes do expediente. Costumava almoçar com os soldados e frequentar as celebrações das datas comemorativas dos diferentes países que compunham a tropa.

Em 2015, quando sobrevoava um local patrulhado por grupos armados, o helicóptero de Santos Cruz foi alvejado com tiros de fuzil, e teve o tanque furado. O subtenente Antônio Marcos estava ao seu lado.

"Fizemos um pouso de emergência em uma cidade próxima. Havia o risco de a aeronave explodir com qualquer fagulha, mas sentimos confiança na tripulação e todos mantiveram a calma", lembra Antônio. À época, Santos Cruz disse que "essas coisas fazem parte do trabalho".

"Ele sempre administrou os problemas muito bem. Saía de uma reunião com o Conselho de Segurança da ONU, com aquele estresse todo, e falava como se nada tivesse acontecido. Sempre filtrou os problemas e nunca deixou se refletirem nos subordinados", descreve o subtenente.

Os conflitos no Congo eram e ainda são múltiplos, envolvendo grupos paramilitares que destruíam vilas inteiras e cometiam assassinatos em massa, estupros e degolações.

Hoje diretor do Unic, Maurizio Giuliano era chefe do escritório da ONU para coordenação de assuntos humanitários na Província Oriental da RDC à época. Ele lembra que Santos Cruz viajava sem parar e não gostava de perder tempo com protocolos excessivos.

"Ele era carismático, forte e convincente, e não se furtava a falar as coisas na cara das pessoas quando havia problemas", lembra Giuliano.

Uma das conquistas da Monusco à época foi neutralizar o Movimento 23 de Março (M23), o maior grupo guerrilheiro do país, atuando em conjunto com as Forças Armadas do Congo.

O prestígio conquistado com a missão na RDC rendeu a Santos Cruz o convite, por parte do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, para escrever um relatório sobre como reduzir os riscos e o número de mortes entre os capacetes azuis nas missões de paz.

As tropas multinacionais da ONU haviam sofrido baixas recentes em países como Mali e Sudão do Sul. Depois de passar 45 dias visitando diferentes missões, Santos Cruz publicou suas conclusões em dezembro de 2017, com o título: "Melhorando a segurança das forças de manutenção da paz das Nações Unidas - Precisamos mudar a maneira como estamos fazendo negócios".

Em oposição à ideia de que os capacetes azuis deveriam atacar apenas quando atacados, o relatório argumentava que as tropas da ONU precisavam se engajar em combates proativamente, caso contrário não só deixariam de proteger civis como estariam colocando seus homens em risco.

"Se a ONU não mudar sua mentalidade, tomar riscos e mostrar disposição para enfrentar esses novos desafios, vai estar conscientemente enviando tropas em direção ao perigo", escreveu Santos Cruz.

Segundo Maurizio Giuliano, do Unic, o documento levou a uma mudança na mentalidade sobre as missões de paz e se tornou uma referência dentro da organização, onde é conhecido como o "relatório Santos Cruz".

Membros da equipe de Santos Cruz o descrevem como uma figura afável, generosa e correta, que chega cedo e sai tarde ao gabinete. E sorridente, ao contrário da imagem propagada pelos memes.

"Tem o personagem e o real", brincou o ministro em entrevista à BBC News Brasil em janeiro, mostrando-se bem-humorado.

As funções atuais são bem distantes da área de segurança e do foco que tinha até o ano passado, quando deu apoio à intervenção federal no Rio de Janeiro e prestou consultoria à ONU.

Perguntado sobre o contraste entre os dois mundos, Santos Cruz diz que "os bons princípios" que traz do meio militar são os mesmos da vida civil. Entre eles, "a honestidade, a dedicação, a necessidade de dar exemplos".

"Principalmente a honestidade e dedicação, em um país que vinha sendo traumatizado por roubalheira, por corrupção", diz, aludindo aos governos petistas.

Em um governo que parece fechado a ONGs e movimentos sociais, Santos Cruz se apresenta como "porta de entrada" a todos os segmentos sociais "que querem falar com o governo sobre seus anseios, suas sugestões, seus problemas". Audiências com ele têm sido disputadas.

"É uma questão de atenção à sociedade. A sociedade tem que ter essas portas de acesso ao governo", afirma ele, que é ponto de contato também para prefeitos e governadores que desejem interlocução com o governo.

Em maio, com a crise ainda se dissipando, Santos Cruz teve seus poderes ampliados pelo decreto 9.794, publicado no Diário Oficial no último dia 15.

A resolução dá ao ministro-chefe da Secretaria de Governo a prerrogativa de avaliar e decidir pela "conveniência e oportunidade" das nomeações de funcionários do segundo e terceiro escalão do governo, incluindo os reitores de universidades federais.

Santos Cruz nega que tenha adquirido "novos poderes", ou que poderá avalizar indicações de funcionários. Afirma tratar-se apenas de uma medida de "coordenação", para organizar as nomeações e verificar seus dados.

Perguntado se saiu fortalecido da crise, diz não se preocupar com isso.

"Eu não sou de me emocionar com fortalecimento ou não. Estou simplesmente fazendo o meu trabalho, e vou continuar focado nele", afirma.

"Enquanto eu estiver sendo útil, está ótimo. A hora que não for, que eu seja substituído, como qualquer um. Não vou ficar pensando em fazer manobras de fortalecimento. Não é o meu estilo, não."

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